Conheça as cidades que só elegem homens, mulheres sem espaço na política

Levantamento do GLOBO aponta 65 municípios que não elegeram sequer uma vereadora nas duas últimas décadas; veja histórias de candidatas que tentam quebrar esta escrita em 2020

Conheça as cidades que só elegem homens, mulheres sem espaço na política Mulheres lançam candidaturas às câmaras de vereadores em cidades que elegeram quase nenhuma - ou nenhuma - candidata do sexo feminino nos últimos 20 anos Foto: Editora de Arte/Montagem sobre fotos de Jorge William, Brenno Carvalho e Marcia Foletto Notícia do dia 11/10/2020

RIO (*com enviados especiais) - Os números do cenário eleitoral brasileiro deixam explícitas as barreiras para a igualdade entre homens e mulheres na política. Levantamento do GLOBO, com base em informações do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mostra que 65 municípios, espalhados por todas as regiões, não elegeram sequer uma representante feminina para as câmaras de vereadores nos últimos 20 anos. São cidades com características econômicas e sociais diversas — o que as une é a falta de diversidade nos legislativos locais. Em 2016, um parlamento exclusivamente masculino foi formado em 1.292 municípios, 23,3% do total no país.

Apesar de serem a maioria do eleitorado (52,5%), as mulheres representam 34% das candidaturas — 78% são estreantes em 2020. Será o primeiro pleito municipal em que partidos são obrigados a reservar pelo menos 30% do fundo eleitoral para candidatas.

Um dos pontos citados por especialistas para explicar a presença rara na política é o predomínio masculino nos diretórios partidários: apenas uma das 33 legendas do país tem mais mulheres do que homens no comando nacional, o PMB.

— A política é um negócio de quem já está dentro, qualquer grupo de outsider tem dificuldade de entrar. É como um clube: funciona com regras próprias e privilegia iguais. Isso é um problema para negros, pobres e mulheres — ressalta a cientista política Débora Thomé, pesquisadora da UFF.

Uma eleição disputada em tempos de pandemia tende a ser uma barreira extra, na avaliação da pesquisadora Malu Gatto, da University College London:

— Além de recurso material, muito importante na campanha é tempo para ir às ruas e estar com as pessoas. Como as mulheres têm limitação nesse sentido, isso também vai impactá-las — destaca Malu, em referência à sobrecarga provocada por trabalho, tarefas em casa e cuidados com os filhos.

Em Cabeceiras (GO), defesa das grávidas onde não há serviço de parto

Uma parteira, adorada pela comunidade de um lugar onde o hospital não tem serviço médico para parto, foi a única mulher eleita para a Câmara Municipal de Cabeceiras (GO), desde a redemocratização. Sebastiana Pereira Cordeiro, então com 52 anos, recebeu 148 votos na disputa eleitoral de 1996, o suficiente para conquistar uma vaga de vereadora na cidade, um micromunicípio a 150 quilômetros de Brasília, já na divisa com Minas Gerais.

A parteira concluiu o mandato em 2000 e tentou se reeleger. Naquele ano, recebeu oito votos a menos e perdeu a eleição. Vinte e quatro anos depois da vitória nas urnas, nenhuma outra mulher de Cabeceiras repetiu a escrita de Sebastiana, que morreu em 2018.

Candidata a vereadora de Cabeceiras pela primeira vez, Maria Lúcia Gomes pede voto de porta em porta e tenta repetir feito inédito da tia Foto: Jorge William/Agência O Globo
Candidata a vereadora de Cabeceiras pela primeira vez, Maria Lúcia Gomes pede voto de porta em porta e tenta repetir feito inédito da tia Foto: Jorge William/Agência O Globo

Os nove vereadores da cidade são homens, há décadas. Alguns deles se perpetuam indefinidamente nos mandatos — e querem seguir na cadeira, que paga um salário de R$ 5.060. As fotos dos mandatários espalhadas nas paredes do prédio da Câmara pouco se alteram.

Cabeceiras é uma cidade onde as mulheres estão alijadas do poder. Nunca houve uma prefeita eleita. E as carências do lugar, movido pelo agronegócio, onde vivem 7,3 mil pessoas, são muitas. Uma delas: para dar à luz seus filhos, as mulheres grávidas precisam deixar a cidade. Os partos são feitos num hospital de Formosa (GO), a 60 quilômetros.

Uma sobrinha de Sebastiana tenta, pela primeira vez, chegar à Câmara Municipal. Conselheira tutelar, Maria Lúcia Gomes é do PDT, partido do prefeito, e tem como uma das plataformas a distribuição de enxovais a mulheres grávidas carentes da cidade.

— Acho que preciso de, no mínimo, 250 votos. Peço o voto de porta em porta. A política aqui precisa de mais mulheres — diz Lúcia.

Dos 35 candidatos a vereador, 11 são mulheres. Uma delas é Maria das Graças Alencar, a Maria Ceará — em 2016, ela foi a mulher mais bem votada, mas não foi suficiente para ser eleita. Sem dinheiro do partido, o DEM, a candidata improvisou santinhos em busca dos votos.

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— Acho que não estou tão forte para ganhar. Esses políticos velhos sabem trabalhar. E não adianta: ser mulher prejudica. Parece que veem a mulher como alguém que não pode ter voz ativa — afirma a candidata.

A segunda e a terceira mulher mais bem votadas em 2016 desistiram de ser candidatas em 2020. Roneide Gomes cedeu a vaga a um primo. Na eleição passada, ela teve 118 votos.

— Acho difícil que uma mulher ganhe. Há um preconceito da própria mulher. Como sempre tem muito candidato homem, fica parecendo que a política é coisa de homem — diz Roneide.

O vereador Edmundo Gomes, que busca o quinto mandato, diz que as mulheres não conquistam as vagas na câmara porque “não trabalham os quatro anos para ser eleitas”.

— É preciso ter uma família conhecida na cidade, ter serviço prestado.

No interior mineiro, oferta de emprego em troca da desistência

Na tentativa de ultrapassar os obstáculos às candidaturas femininas, Tamires Natália (Republicanos) conta com 28 votos de familiares — trunfo que pode fazer a diferença em Oliveira Fortes, município de dois mil habitantes no interior de Minas Gerais, onde um vereador foi eleito com 51 votos há quatro anos. O fator que pode torná-la a segunda vereadora da história da cidade é o mesmo que acendeu o alerta de políticos locais, que se sentiram à vontade para propor uma troca:

— Ofereceram um emprego para que eu tirasse a minha candidatura, porque eu ia puxar o voto da minha família, que também conhece muita gente. Disseram que eu vou atrapalhar — contou a candidata.

Angélica Lacerda, candidata a vereadora em Oliveira Fortes: “Já ouvi que mulher não é aceita aqui” Foto: Brenno Carvalho/Agência O Globo
Angélica Lacerda, candidata a vereadora em Oliveira Fortes: “Já ouvi que mulher não é aceita aqui” Foto: Brenno Carvalho/Agência O Globo

Mais experiente na política local, Angélica Lacerda tentou duas vezes ser eleita para a Câmara de Vereadores, mas desistiu — em 2016, os 36 votos renderam apenas uma suplência.

— Já ouvi de muito eleitor que mulher não é aceita aqui. Quando eu fiz campanha, tentei mostrar que não adiantava dar saco de cimento e geladeira e acabar com o compromisso. O candidato vai lá, te compra e pronto, não quer nada contigo. Os vereadores aqui são sempre os mesmos. É difícil mudar, sai pai e entra filho. Eu tinha vontade de tentar de novo, mas não adianta.

Outro exemplo de desistência é o de Noeme Costa, que concorreu em 2016, pelo PDT. Ela reclama que a legenda não deu a ela o suporte devido.

— A falta de apoio do partido dificulta muito. Não tem incentivo. A gente não recebe ajuda para ir à zona rural, por exemplo, e lá tem eleitor.

Vereador de primeiro mandato, Luciano Ferreira, candidato à reeleição, é presidente do PTB na cidade e filho de um político conhecido na região — após a aposentadoria do pai, resolveu abraçar de vez a carreira familiar. Para ele, as mulheres não são eleitas em Oliveira Fortes porque não se envolvem “o suficiente” no processo político local. Na condição de chefe partidário, reclama das vezes em que precisou reduzir o número de candidaturas masculinas para cumprir a determinação que obriga os partidos a terem 30% de representantes mulheres.

— Tem uma dificuldade de engajamento da mulher. Não é fácil, elas não querem concorrer porque precisam competir com muita gente conhecida — diz Ferreira, que nega o machismo na cidade e explica de forma clara o funcionamento da política local: — A concorrência é muito grande. É mais fácil (os atuais vereadores) irem para a reeleição do que elas entrarem na política. Nós estamos mais à vista. Não acho que tenha machismo. Cidade pequena não avalia muito qualidade de mandato, vota mais se a pessoa é legal, conhecida, se faz trabalho social, doa medicamento, ajuda a pagar a água, a luz.

Em Casimiro de Abreu (RJ), presença masculiina até em nomes das candidatas

O machismo em Casimiro de Abreu está nos gestos, quando o coordenador de campanha toma a palavra para responder o que já foi dito pela candidata. Também se reflete na falta de protagonismo feminino no cenário político, já que a cidade do interior do Rio é uma das 65 pelo país que não elegeram sequer uma mulher para câmaras de vereadores nos últimos 20 anos. E deixa sua marca até nos registros que vão para a urna: é comum que representantes femininas associem seus nomes a homens importantes da cidade.

Maria de Fatima Pereira Canejo Francisco (PSD) é conhecida como Fátima do Zé, por ser casada com o vereador e postulante a vice-prefeito Zé Alexandre (PSD). E Karen Louzada Pinto (PDT) é Karen de Edimar, uma homenagem ao pai. Elas são duas das 74 mulheres — num universo de 212 candidatos — que tentarão uma das nove vagas para a Câmara Municipal de Casimiro de Abreu e estão dispostas a ajudar reescrever a história.

Elisa Vervical (Cidadania) disputa uma vaga no Legislativo da Casimiro de Abreu pela segunda vez: “Já está mais do que na hora de termos uma mulher na Câmara” Foto: Márcia Foletto/Agência O Globo
Elisa Vervical (Cidadania) disputa uma vaga no Legislativo da Casimiro de Abreu pela segunda vez: “Já está mais do que na hora de termos uma mulher na Câmara” Foto: Márcia Foletto/Agência O Globo

Provocada sobre a escolha de usar em seu nome eleitoral o “de”, sugerindo uma relação de propriedade com um homem, Karen reconhece que faz todo o sentido, mas diz que jamais havia analisado sob essa perspectiva:

— Escolhi incluir o nome do meu pai não por ele ser homem, mas por ser muito respeitado na cidade.

Simone Feitosa (PDT) tentará uma vaga no Legislativo de Casimiro pela quarta vez, número que lhe dá o título de candidata que mais disputou eleições para vereadora no município. Ela lamenta que as dificuldades na corrida já comecem pelas condições desiguais durante a campanha.

— Ganhamos menos material de divulgação, temos menos tempo de fala durante os eventos políticos e até na hora de escolher a numeração de registro de candidatura ficamos em segundo plano — lista Simone, explicando que a prioridade é de políticos com mandato vigente; ou seja, todos homens.

Além da discrepância em termos de competitividade, a pedetista diz que ainda é obrigada a ouvir comentários ofensivos e preconceituosos apenas por ser mulher:

— Na última eleição, durante um comício, falei que estava na hora de ter uma vereadora na Câmara, e escutei como resposta de outro político: “Melhor se fosse na cama”.

Depois de receber apenas três votos em 2016, Elisa Vervical (Cidadania) está em sua segunda eleição. Ela atribui o péssimo resultado à decisão de, bem no meio do processo eleitoral, desistir de fazer campanha. Hoje com 22 anos, Elisa justifica que não estava preparada para assumir o cargo. Agora ela quer fazer diferente.

— Acabei atuando na coordenação do partido — explica. — Este ano vai ser diferente. Estou confiante, começando a campanha às 7h , todos os dias, indo de porta em porta. Já está mais do que na hora de termos uma mulher na Câmara.

Elisa tem como bandeira dar voz às mulheres de sua cidade. Em uma amostra de como a mudança é difícil, ela chegou para a entrevista com seu coordenador de campanha, homem, a quem recorreu muitas vezes para confirmar respostas e que chegou a interrompê-la para explicar algo que ela tinha dito — comportamento descrito como mansplaining no dicionário feminista.

Segundo ela, a presença do assessor lhe dá segurança:

— Minha equipe é quase toda formada por mulheres, mas como ando pela cidade até tarde da noite, me sinto mais segura de tê-lo ao meu lado.

A culpa da inexistência de representatividade feminina na política de Casimiro de Abreu é, por vezes, atribuída à própria mulher. Para Ozilei Alves Moreira (PDT), presidente da Câmara dos Vereadores e candidato a vice-prefeito, o que falta à mulher casimirense é “acreditar mais nela”.

— Não acredito que se deva votar em mulher só por ser mulher. Ela tem que vencer por querer trabalhar pelo povo. Até a eleição passada, nunca uma mulher se inseriu na política dessa forma — afirma o político, prevendo que em 2020 a cidade vai eleger sua primeira vereadora.

Texto: Alice Cravo*, Pedro Capetti, Vinícius Sassine* e Fernanda Alves*

O GLOBO 

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